Um quarto de século do Big Mac
Guilherme Coelho
Hoje minha família foi almoçar no shopping. Como eu estava muito atolado em afazeres e trabalhos da faculdade, pedi que me trouxessem algo para comer em casa. Uma hora mais tarde, já não produzia nada em função da fome, quando meu almoço chegou dentro de um saco de papel com um M de McDonald’s estampado dos dois lados da embalagem. Abri e senti aquele cheiro que a gente logo sente ao adentrar uma praça de alimentação de shopping. Parece um cheiro resultado da mistura de todos os cheiros de comidas e molhos que há em uma praça de alimentação, do qual, se você estiver com fome, fazem com que perca a noção de tudo que está a sua volta e se atire ao primeiro balcão suplicando por qualquer comida, mas, se tiver acabado de almoçar, lhe causam uma repulsa fazendo com que não consiga passar nem perto.
Comecei a comer as batatas e logo passei para o sanduíche. Era um Big Mac. Estava perfeitinho, não tanto quanto os que ilustram os painéis e outdoors da loja, mas pelo menos estava de pé. Comia sozinho na mesa da cozinha, pensando em todo tipo de coisa, quando uma mensagem publicitária me chamou a atenção. Era um coração. Na verdade, era um pão em forma de coração e encravado de gergelim, estampado na caixinha do Big Mac. Um coração na embalagem de um sanduíche, e não era um alerta do ministério da saúde contra os riscos do colesterol causado por uma má alimentação. Não, era uma foto comemorativa dos 25 anos do Big Mac.
Mas isto não era nada perto do que eu encontrei ao dar meia volta na caixinha. Do lado de traz havia uma mensagem que dizia o seguinte: “Uma boa pedida na hora do almoço é ir a pé ao restaurante. Você economiza combustível e deixa sua vida ainda mais saudável”. A princípio eu fiquei pensando se aquilo seria uma piada, mas então, por que será que não estou rindo? Ir a pé ao restaurante, em plena Belo Horizonte, em meio a toda esta violência e em tempos onde cada segundo perdido faz diferença no bolso mais tarde.
Tente imaginar a esdrúxula situação. A mãe reúne a família e diz: Vamos crianças, calcem seus tênis de caminhada, estamos indo almoçar. E então saem a percorrer três, quatro ou dez quilômetros até o restaurante, dependendo do tipo de comida que forem comer. E então, depois de satisfeitos, nada de uma deitadinha para fazer a digestão. Não temos tempo, pois, ainda temos um longo caminho a percorrer, agora que estamos com a barriga cheia.
Esta com certeza é uma das coisas mais contraditórias que já presenciei no fantástico mundo de faz de conta das publicidades. Eu não entendo como uma pessoa que se preocupa com sua saúde e faz caminhada para queimar calorias, almoça dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles, num pão com gergelim.
E quem se disponibiliza a pagar quase dez Reais por um sanduíche com batatas fritas, mas vai a pé ao restaurante para economizar o combustível do carro. Para quem é direcionada esta mensagem afinal? Deve ser pra mim. Sou eu quem está devorando um delicioso Big Mac sem qualquer sentimento de culpa ou consciência pesada. EU AMO MUITO TUDO ISSO!
"Quando despertou, o dinossauro ainda estava ali."
Augusto Monterroso (o conto mais curto da história)
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