Quinta-feira, Agosto 26, 2004

Um quarto de século do Big Mac





Guilherme Coelho

Hoje minha família foi almoçar no shopping. Como eu estava muito atolado em afazeres e trabalhos da faculdade, pedi que me trouxessem algo para comer em casa. Uma hora mais tarde, já não produzia nada em função da fome, quando meu almoço chegou dentro de um saco de papel com um M de McDonald’s estampado dos dois lados da embalagem. Abri e senti aquele cheiro que a gente logo sente ao adentrar uma praça de alimentação de shopping. Parece um cheiro resultado da mistura de todos os cheiros de comidas e molhos que há em uma praça de alimentação, do qual, se você estiver com fome, fazem com que perca a noção de tudo que está a sua volta e se atire ao primeiro balcão suplicando por qualquer comida, mas, se tiver acabado de almoçar, lhe causam uma repulsa fazendo com que não consiga passar nem perto.

Comecei a comer as batatas e logo passei para o sanduíche. Era um Big Mac. Estava perfeitinho, não tanto quanto os que ilustram os painéis e outdoors da loja, mas pelo menos estava de pé. Comia sozinho na mesa da cozinha, pensando em todo tipo de coisa, quando uma mensagem publicitária me chamou a atenção. Era um coração. Na verdade, era um pão em forma de coração e encravado de gergelim, estampado na caixinha do Big Mac. Um coração na embalagem de um sanduíche, e não era um alerta do ministério da saúde contra os riscos do colesterol causado por uma má alimentação. Não, era uma foto comemorativa dos 25 anos do Big Mac.

Mas isto não era nada perto do que eu encontrei ao dar meia volta na caixinha. Do lado de traz havia uma mensagem que dizia o seguinte: “Uma boa pedida na hora do almoço é ir a pé ao restaurante. Você economiza combustível e deixa sua vida ainda mais saudável”. A princípio eu fiquei pensando se aquilo seria uma piada, mas então, por que será que não estou rindo? Ir a pé ao restaurante, em plena Belo Horizonte, em meio a toda esta violência e em tempos onde cada segundo perdido faz diferença no bolso mais tarde.

Tente imaginar a esdrúxula situação. A mãe reúne a família e diz: Vamos crianças, calcem seus tênis de caminhada, estamos indo almoçar. E então saem a percorrer três, quatro ou dez quilômetros até o restaurante, dependendo do tipo de comida que forem comer. E então, depois de satisfeitos, nada de uma deitadinha para fazer a digestão. Não temos tempo, pois, ainda temos um longo caminho a percorrer, agora que estamos com a barriga cheia.

Esta com certeza é uma das coisas mais contraditórias que já presenciei no fantástico mundo de faz de conta das publicidades. Eu não entendo como uma pessoa que se preocupa com sua saúde e faz caminhada para queimar calorias, almoça dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles, num pão com gergelim.

E quem se disponibiliza a pagar quase dez Reais por um sanduíche com batatas fritas, mas vai a pé ao restaurante para economizar o combustível do carro. Para quem é direcionada esta mensagem afinal? Deve ser pra mim. Sou eu quem está devorando um delicioso Big Mac sem qualquer sentimento de culpa ou consciência pesada. EU AMO MUITO TUDO ISSO!

"Quando despertou, o dinossauro ainda estava ali."

Augusto Monterroso (o conto mais curto da história)

Tem que ver: Super Sise Me
Tem que ouvir:In Hiding – Pearl Jam
Tem que entrar: www.condedrakula.e1.com.br

Domingo, Agosto 01, 2004

Amazônia, patrimônio mundial


Amazônia, patrimônio mundial...

Cristovam Buarque

Durante debate recente em uma Universidade, nos Estados Unidos, o ex-governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque do PT, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Segundo Cristovam, foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para a sua resposta:

- De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrarias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza especifica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.

Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir a escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.

Meu Comentário:

Assim como o futebol, o samba e o carnaval, a cachaça e o cupuaçu, a Amazônia é também um orgulho nacional. É nossa e ninguém pode destruir-la, a não ser nós mesmos. Nós somos a maior ameaça à reserva, por mais que não reconheçamos. Somos tão firmes e capazes na hora de afirmar nosso patrimônio, mas não fazemos nada para protegê-lo da devastação, pelo contrário, utilizamos todos seus recursos irresponsavelmente como se fossem inesgotáveis.

Com a maior reserva contínua do planeta, a Amazônia abriga quinze vezes mais peixes que todos os rios europeus, guarda 20% da água potável do mundo e tem a maior linhagem de aves, primatas, roedores, jacarés, sapos, insetos e lagartos da terra.

Hoje, a área desmatada da floresta equivale à de um país como a França. Segundo pesquisas realizadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), daqui a apenas vinte anos poderão restar somente 28% de mata virgem na Amazônia para ser otimista, e 4,7% na pior das hipóteses. Este é o principal argumento utilizado pelas potências para se internacionalizar a floresta, na verdade, é um ótimo argumento.

A Amazônia é o pulmão do mundo e exporta matéria-prima boa e barata. Nós não temos recursos e nem vontade de investir na recuperação e preservação da mata, o que nos coloca em uma posição pouco favorável para se reivindicar sua posse.

Não estou dizendo que o acesso à riqueza natural da Amazônia deva ser liberado a outros países, por que isto já ocorre desde o descobrimento. O que eu acredito é que qualquer obra da natureza deve ser preservada independentemente se alguém se julga dono ou não. O planeta é de todos, e todos precisamos dele. Perfeito ou não é o único que temos, sendo assim, façamos dele o melhor.


Tem que ver: Laranja Mecânica
Tem que ouvir: John Lennon - watching The Wheels

Sexta-feira, Julho 02, 2004

Fuck imperialismo americano



1953: EUA derrubam Mossadeq - primeiro-ministro do Irã.
EUA colocam Shah como ditador.

1954: EUA derrubam Arbens, presidente da Guatemala.
200 mil civis são mortos

1963: EUA apóiam assassinato do presidente Sul – Vietnamita, Diem.

1963 – 1975: Exército Americano mata quatro milhões na Ásia.

11 de setembro de 1973: EUA armam um golpe de estado no Chile.
O presidente Salvador Allende é assassinado.
O ditador Augusto Pinochet assume.
Cinco mil chilenos são assassinados.

1977: EUA apóiam o governo militar de El Salvador
70 mil salvadorenhos e 4 freiras americanas são mortos.

1980: EUA treinam Bin Laden e terroristas para matar soviéticos.
A CIA da a eles U$$ 3 bilhões.

1981: Governo de Reagan treina e financia contras.
30 mil nicaragüenses são mortos.

1982: EUA dão a Saddam Hussein armas para matarem iranianos.

1983: Casa Branca dá armas ao Irã para matar iraquianos.

1989: O agente da CIA, Manuel Noriega, presidente do Panamá desobedece às ordens de Washington.
EUA invadem o Panamá e derrubam Noriega.3 mil civis mortos.

1990: Iraque invade o Kuwait com armas americanas.

1991: EUA entram no Iraque.
Bus reempossa o ditador do Kuwait.

1998: Clinton bombardeia “fábrica de armamentos no Sudão”.
Era uma fábrica de aspirinas.

1991 até hoje: Aviões americanos bombardeiam o Iraque.
ONU estima que 500 mil crianças iraquianas morrem devido às sanções.

2000 – 2001: EUA dão ao Afeganistão dos talibãns U$$ 245 milhões

11/02/2001: Osama Bin Laden mata 3 mil pessoas com técnicas da CIA.
(Estes dados foram retirados do documentário “Tiros em Columbine”)
Meu comentário:

É uma Pena que o documentário “Tiros em Columbine” tenha sido produzido antes da invasão dos EUA ao Iraque, ou então Bush teria um probleminha a mais em sua campanha a reeleição. O cineasta e anti – Bush, Michael Moore, sabe mesmo como atentar o público para os podres políticos americanos, sempre de forma divertida, mas com um leve gostinho de sarcasmo.

Moore produziu um novo documentário (fahrenheit 9/11) que retrata um pouco da vida de George WAR Bush, como ele mesmo costuma chamar o republicano, e até já ganhou a “Palma de Ouro”, concorrendo com “Diários de Motocicleta” e outros. No entanto, é claro, devido a seu conteúdo comprometedor que possa vir a prejudicar a campanha eleitoral de Bush, o documentário foi vetado, também para que a produtora, que se eu não me engano é a Disney, não perca seus “benefícios” concedidos pelo governo. Eu achava que democracia e liberdade de expressão eram diferentes em países desenvolvidos, já vi que não. Às vezes eu até fico em dúvida se estou falando dos EUA ou do Brasil.

Em ambos, os governantes fazem o que bem entendem, ninguém fala nada e depois que a poeira abaixa todos se esquecem e agem como se nada houvesse acontecido. Aliás, em matéria de fazer o que dá na telha, os EUA provaram que são campeões. Invadiram o Iraque passando por cima até da ONU, com o falso pretexto de combater o terrorismo e apreender supostas armas químicas de destruição em massa estocadas por Saddam Hussein. Este foi capturado, mantido preso, e agora, devolvido para ser julgado por um júri criado pelo governo interino. Quem entende?

Quanto às armas de destruição em massa, o secretário de defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, declarou a uma emissora de rádio da Califórnia que tropas polonesas teriam encontrado projéteis suspeitos de conter resíduos de gás sarin, que afeta principalmente o sistema nervoso das pessoas. Estes artefatos teriam sido utilizados pelo Iraque na invasão ao Kuwait. Quem será que forneceu estas armas ao Iraque? Meu ex – professor de geografia dizia que se os americanos quisessem provar a existência de armas de destruição em massa no Iraque, é fácil, basta mostrar os recibos.

Os EUA entendem mesmo deste negócio de invasão. Estão sempre dispostos a movimentar sua indústria bélica, exercendo seu fuck imperialismo.Brasileiros, aqui vai um aviso! Nossas reservas naturais estão na lista dos americanos!


Tem que ouvir: Bushleaguer – Pearl Jam
Tem que Ver: Invasões Bárbaras
Tem que entrar: www.michaelmoore.com

Quinta-feira, Junho 24, 2004

Odeio os indiferentes


Odeio os indiferentes

Antonio Gramsci, escritor Italiano no livro La Città Futura

"Odeio os indiferentes. Como Frederico Hebbel, acredito que ‘viver é tomar partido’. Não podem existir apenas homens, os estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida. Por isso, odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte na qual freqüentemente se afogam os entusiasmos mais esplendorosos.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade, é aquilo com o que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mais bem construídos. É a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se deve tanto à iniciativa dos poucos que atuam, quanto à indiferença de muitos. O que acontece não acontece tanto porque alguns o queiram, mas porque a massa de homens abdica de sua vontade, deixa de fazer, deixa enrolarem os nós que, depois, só a espada poderá cortar; deixa promulgar leis que, depois, só a revolta fará anular; deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar.

Os fatos amadureceram na sombra porque mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso.

Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões restritas, os objetivos imediatos, as ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens ignora, porque não se preocupa. Por isso, odeio os indiferente.”.


Meu comentário:

A vida só muda, quando alguém decide fazer com que ela mude. Ser indiferente ao mundo em que você vive é muito cômodo, muito fácil. Difícil é fazer a diferença, mudar o rumo das coisas, mudar o curso do rio. Pra isso é preciso coragem, é preciso atitude, não é pra qualquer um. Tem que estar disposto a abrir mão de alguns sacrifícios, como passar o domingo sentado em frente à televisão consumindo o lixo alienante que a indústria cultural nos oferece.

Fazer a diferença não significa criar uma guerra ou uma revolução. Não necessariamente. As pequenas mudanças, quando feitas coletivamente já são um bom passo para se fazer uma grande diferença. O importante é a conscientização de que todos somos um, e quando aprendermos a usar a cultura, a educação e a informação a nosso favor, venceremos qualquer sistema.


Intertextualidade: Gabriel O Pensador – Até quando você vai levando?

Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda agente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente

Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro

Tem que ouvir: Gabriel O Pensador – Até quando você vai levando?
Tem que ver: Tiros em Columbine – Michael Moore